Manhã no Coque

por Samarone Lima

O Coque aparece quase todo dia na TV e nos jornais, quando acontece algum homicídio ou prisão, relacionada geralmente com tráfico de drogas. É considerado por muita gente como “o bairro mais violento do Recife”.

Como era de se esperar, nenhum jornalista apareceu, de nenhum meio de comunicação deu as caras, para mostrar a inauguração, neste sábado, da Biblioteca Popular do Coque, uma iniciativa da comunidade, com o apoio de Frei Aloísio Fragoso, UFPE e outros parceiros. Alguém já viu inauguração de uma biblioteca num bairro pobre ser notícia neste país? Não deve dar ponto no Ibope ver uma pequena casa repleta de gente, livros chegando, doações de todos os lados, enquanto jovens liam histórias para crianças, nas calçadas do bairro.

Marquei com alguns dos meus alunos a estação Joana Bezerra, do metrô. Iríamos também dar um abraço em Procópio e Sérgio, do Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis (MABI), brutalmente espancados pela Polícia Militar, dia 23.

Defronte à estação, um descampado, sacos de lixo e um cavalo, tentando descolar um lanche. Do outro lado, o imponente, majestoso, caríssimo prédio da Justiça. Muita coisa no mármore, porque a turma da Justiça gosta de um mármore, talvez a metáfora mais simples de algo duro, imutável e frio, como a Justiça no Brasil. Um vendedor fica gritando:

“Olha a Folha! Folha é um real!”

Dou uma olhadinha na machete:

“Tiros e demissões no Náutico”.

Observo o movimento. A estação do metrô tem integração com o terminal de ônibus. Várias pessoas vêm por fora e não passam pela catraca, sob o olhar complacente de três policiais militares. Não sei qual a regra para liberarem desse gasto a mais (R$ 1,60), mas vejo várias pessoas passando. Daqui a pouco, vem um jovem negro, com boné para trás, com um andar meio tímido. Faço o meu teste de racismo ao vivo. Ele vem na direção da catraca, faz um sinal de positivo para o guarda, querendo passar por fora, o PM responde:

“É por lá, visse?”, mostrando a catraca.

Enquanto isso, várias outras pessoas passam sem pagar.

O rapaz baixa a cabeça e volta. Está sem dinheiro. Penso em pagar a passagem, mas se eu for me intrometer em todas as mazelas sociais, minha vida vai ser um inferno. O rapaz faz uma cera, depois encontra um casal, que vem com um filho pequeno. Fala com eles, vem andando. Acho que agora, acompanhado de uma família emprestada, ele vai conseguir. Lá vem ele. A família passa, o PM olha e diz, irritado:

“É por ali, eu não já te disse”, diz o tira, na faixa dos 50 anos, gordo, cabelos grisalhos, uma pistola à cintura.

O menino vai embora, olhando para o chão. Outras pessoas passam sem pagar.

Depois chega Ana Cecília, minha aluna. Veio de Brasília Teimosa. Está estudando em um pré-vestibular na UFPE. É uma criatura maravilhosa, umas das melhores alunas, educada, gentil, e leitora voraz de coisas lindas. Aguardamos Aldemir, o “Suco”, que também vem de Brasília, dar uma força à biblioteca. Ele chega de ônibus, acena pela janela com aquela sua cara de boa gente. Traz na sacola seu caderno, cheio de poesias.

Caminhamos até a rua Centenário do Sul, viramos à direita, estamos dentro da comunidade. É o sábado típico do Recife, com gente nas ruas, manicures mandando ver, roupas penduradas, crianças brincando etc. Na frente da biblioteca, muita gente, crianças, gente da UFPE, a velha amiga Ivana Fechini, muitos alunos. Encontro Flávia Suassuna, amiga blogueira, professora de Literatura. Ela vai falar na inauguração do espaço, e fico sabendo que também fui escalado para dizer algo.

Flávia conta da importância dos livros. Citou um exemplo maravilhoso, ao mostrar um livro com um quadro ao seu filho, e ele respondeu:

“Mãinha, ainda não sei gostar”.

É isso mesmo, Flávia, é isso mesmo, nada como ajudar a gostar dos livros, para mudar esta cidade tão bela e assustadora. Mais livros, mais bibliotecas, mais histórias, romances, crônicas, poesias, menos armas, menos violência, a gente começa a gostar das belezas, a se mexer, a fazer algo, por mais simples, e não aceita mais tanta feiúra, nem fica refém do medo.

Falo minhas águas, cito o exemplo de minha aluna, Cássia, que mora no Coque. Ela chegou para a inauguração com três livros, para doar. Um deles era “Estrela da Vida Inteira”, bela edição com os livros de Manuel Bandeira.

“Pôxa, você vai doar o Manuel Bandeira?”, perguntei.

“Tem problema não, professor. Lá em casa tem dois, um vai para a biblioteca”, responde.

Isso, Cássia, é assim que vamos arrebentando as barreiras. É compartilhando Manuel Bandeira, não com a violência da Rádio Patrulha contra os jovens.

Olho uma figura ímpar. Um senhor bem aprumado, com camisa manga comprida para dentro da calça social, cinturão, uma boina creme com a imagem de Che Guevara. Sim, amigos, é o frei Aloísio Fragoso, que está na comunidade há 30 anos. Estava feliz com a iniciativa, lembrou que a “criança”, que era a biblioteca, tinha nascido, mas precisava crescer, amadurecer.

“Conhecimento hoje é poder. Quem conhece, tem poder”, observou.

Depois ele fez a bênção, com a leitura de um trecho da Bíblia, depois ele espargiu adoro esta palavra) água benta e começaram a cantar a “Oração de São Francisco”. Aproveitei para dar uma olhada nos livros, que chegaram como doação. Simone de Beauvoir, Gabriel Garcia Márquez, Fernando Pessoa, Cecília Meireles, muita literatura infantil, enquanto todos cantavam “onde houver trevas que o leve à luz”.

Do lado de fora, brincadeiras com as crianças, leituras, o bairro em festa. Os meninos do MABI estavam eufóricos.

Voltei para o centro do Recife com Aldemir, o aluno-poeta. Resolvemos seguir caminhando mesmo, para economizar passagens e gastar palavras. Atravessamos a ponte, saímos nos Coelhos, e fomos falando da vida, livros, amores, dores, alegrias, essas coisas. Suco me contou sobre sua vida, a violência que já sofreu da polícia, falou de sua paixão pela poesia, a descoberta dos livros, mais isso fica para outra crônica.

Lá pelas tantas, vinha caminhando uma mulher, com seu filho nos ombros. O menino estava sem camisa, era pequenininho e sorria. Ela vinha repetindo:

“A, e, i, o, u”.

O menino repetia:

“A, e, i, o, u”.

A tal educação sentimental.

(mais textos de Samarone você pode ver aqui)

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