Trança e Coque

(por Flávia Suassuna)

Primeiro fio
Em 2000, meu filho do meio teve uma doença grave e esteve muito tempo naquele limbo estranho entre a vida e a morte.
Não sei direito como falar, nem como sobrevivemos e vivemos com as seqüelas desse tempo bruto. Sei que meus outros dois filhos, nesse período, continuaram caminhando como puderam: um prestou vestibular e passou, o outro fez primeira comunhão.
No dia desse evento, dilacerada, deixei meu filho quase morto sob a tutela de duas amigas queridas no hospital e, tentando apoiar outro filho, mesmo sem poder, presenciei a cerimônia, oficializada por Frei Aloísio.
Suas palavras, sem ele saber, foram calmaria na tempestade que eu atravessava e sua pessoa ficou no meu coração feito uma tatuagem.

Segundo fio
Ensino Literatura num curso de matérias isoladas para o vestibular onde estudaram Fellipe, Izabel e João Neto, amigos de Pedro. Hoje todos eles estudam Jornalismo na UFPE, são alunos de Yvana Fechini e montaram juntos o projeto da Biblioteca Popular do Coque.
Talvez porque amo narrativas, livros e pessoas, fui lembrada quando pensaram no fato de que é preciso ensinar as pessoas do Coque a serem leitores dos livros da biblioteca por nascer.

Terceiro fio
Frei Aloísio financiou o aluguel do local onde a biblioteca foi instalada, e o BNB, o projeto. Algumas escolas doaram livros, e Betânia, um dos braços do Frei, aos poucos, os vai arrumando.

Quarto fio
Meu patrão “adotou” as obras assistenciais de Frei Aloísio que, de vez em quando, passou a não só nos ajudar com palestras, como a nos encaminhar adolescentes pobres os quais, por seu turno, precisam ser ajudados.
Por intermédio dele, Rodrigo aportou na minha vida e no meu coração e passou no vestibular de Engenharia Mecânica da UPE. Começa agora em agosto.
Rodrigo é um menino fundamental no mundo ou no Coque (é só uma questão de se considerar a parte ou o todo da mesma coisa). Junto com outros que imagino serem, como ele, lutadores e guerreiros, “construíram” o MABI (Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis) que, como o nome diz na cara, é uma associação de moradores do lugar os quais, em conjunto, tentam suplantar as dificuldades imagináveis e inimagináveis que devem existir nas suas vidas.

Quinto fio
Eu e minha irmã Débora, famosa diretora de Digitação e Marketing deste blog (sempre gosto de dizer que, sem ela, ele não existiria), há dois anos, resolvemos estudar Filosofia e, no curso, encontramos muitas pessoas raras. Rosário, em especial, que começou a botar na minha cabeça a possibilidade de abrir um blog. O resultado dessa “peitica” vocês já sabem.
Pois bem: quando este espaço ainda era uma idéia na sua cabeça e na minha, ela me indica uma “página linda, tão linda, que poderia servir de ponto de partida, de chegada, de referência, de reflexão…”. Era o “Estuário”, de Samarone.
Samarone já estava na minha vida sem eu saber, de vários modos transitivos indiretos: minha irmã Magda envolveu-se num acidente com ele; minha irmã Débora foi ao lançamento malogrado de seu livro, levou-lhe um livro de sua própria autoria e, por conta dele, chegou a dar uma aula aos alunos da Kabum!; e minha secretária, que mora no Poço, me falava muito de “Seu Marone”, um anjo de lá que arrumava um jeito de ajudar todo mundo.
No sábado passado, quando a pedido de meus ex-alunos fui ao Coque para a inauguração da Biblioteca Popular, essa trança de gente estava toda lá.
De acordo com a desorganização do evento, eu tinha que falar sobre a importância da leitura e dos livros, mas, agarrada à mão de Rodrigo, defronte de Frei Aloísio e de Samarone, eu não disse nada que se aproveitasse, porque fui assaltada por uma emoção tão funda, que não consegui encadear minhas idéias logicamente, o que, mesmo em situações normais, não é meu forte.
Quando Frei Aloísio falou, minha tatuagem começou a arder e aí ele deu a idéia de as pessoas cantarem a “Oração de São Francisco”, enquanto ele dava uma espécie de bênção com uma água que se misturou às minhas lágrimas.
Comecei a me lembrar de minha mãe, que adorava essa música e que já não está conosco há mais de vinte anos.
Quando acabou tudo, já me arrumando para sair, que aquilo estava demais e era preciso fugir para ficar viva, chega uma menina:
− Flávia, é que no vaivém de livros que chegam, que arrumo, que catalogo, achei isso dentro e queria te dar…
Era a carteira de identidade de minha mãe.
Tudo isso confirmou minha classificação em primeiríssimo lugar na categoria “Histórias Fabulosas” de minha família, e estou orgulhosíssima!
É claro que podemos contar essa história dizendo que o Recife é pequeno e que coincidências acontecem. Mas ia ser muito difícil fazê-lo, pois o Recife é uma cidade muito, muito grande; seu coração e sua periferia são feridos por muita, muita pobreza; e tudo isso, na maioria das vezes, resulta em muita, muita violência.
O encontro de sábado, numa cidade de tantos desencontros, é um milagre bonito, orquestrado pelas mais ininteligíveis circunstâncias ou, talvez, pelo Maestro que nos deu a vida e sua tarefa difícil.

(Mais textos de Flávia aqui)

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