Com a palavra, a poeta

A postagem abaixo é de Magna Santos, que participou de nosso sarau na Biblioteca. O sarau encerrou a II Semana Contos e Encantos, com poesias em carrossel. Deixemos que fale a poeta, com a sensibilidade de quem usa os olhos para perceber o que se oculta por trás das coisas, de quem usa as palavras para dar voz ao que se esconde.

Obrigada, Magna, Zé de Guedes, e os que participaram de nosso sarau, apesar da chuva, apesar da concorrência da caminhada pró-Dilma. Obrigada também aos que não vieram, mas que demonstraram atenção e interesse pelo trabalho: Esmael Gaião e o pessoal da Unicordel, Gerusa Leal, Josias de Paula, Dimas Lins… Então, com a palavra, a poeta (convido a acompanharem seu trabalho no blog sementeiras):

SARAU NA BIBLIOTECA DO COQUE

Conheci a menina-ponte no último dia 22. Ela chegou acompanhada de amigos e mostrou o caminho, onde iríamos encontrar poesia, gente e sorrisos. À entrada da rua, foi saudada como só as crianças o fariam. “Tia, tia, tia!” Abraços e mais abraços dá pra conter a euforia e contagiar os reles acompanhantes que, de tão aéreos, não conseguiam atinar para a profundidade da rua. Namorados se abraçavam na calçada, outros conversavam, mas a calçada ali resgatava o significado perdido em muitos lugares: encontro.

A fachada da biblioteca é só cores e figuras felizes de um azul que não está longe do céu. À entrada, as poesias batem nos nossos narizes, dependuradas pelo telhado como se fossem as próprias goteiras congeladas, só que, dessa vez, sortiam de beleza o espaço todo criado pelas crianças. Muitas queriam mostrar a sua:

_ Ler esta!
_ Aquela é dela.
_ Acho linda esta.

E assim fomos respirando, respirando…
Sem fôlego, fui suspendida do chão por uma pequenina vivaz. Outro chegou por trás para ajudar a amiga. Ambos tentavam me levantar, como se, de fato, eu já não estivesse nos ares. Alegria, em forma de pulos, era necessário para também mostrar as fotos aos visitantes:

_ Olha eu ali!
_ Onde?
_ Ali, ó!

Sim, ela estava ali e ali e ali. E eu não sabia em que lugar ficar, visto que queria estar em todos.

Chegando a hora do sarau, vimos meninos se apertarem para ouvir o que os adultos nem sempre estão dispostos, mas que uma caixa de som bem que encurta o espaço, quando se quer.

Em plena rua, Zé de Guedes nos presenteou várias vezes com seus poemas visuais, sonoros e contundentes. Fez sucesso com sua simpatia, seu “urubu-rei”, contagiando todos nós e sendo também surpreendido pelo acolhimento espontâneo e festivo dos pequenos. Fabiana Coelho – a menina-ponte – com seus arquivos poéticos, declamou outros tantos e os meninos…ah, os meninos…

_ Tia, tia, me dá uma poesia, tia!

Como não se emocionar com tamanho pedido? Como não pensar que o mundo, onde crianças pedem poesia só pode crescer e crescer bem? Que explodam todas as teorias pessimistas, todas as visões preconceituosas, todas as manchetes estigmatizantes. Betânia, que persevera naquela biblioteca com o coração mole e os pulsos firmes, nos informou das crianças como quem falava dos próprios filhos. Sim, filhos às vezes dão aperreio, às vezes preocupam, mas acreditá-los é fundamental. E ela acredita.

Tive a honra de “declamar” (“Fabiana, eu não sei declamar”) um dos poemas com um menino esperto, de olhos atentos, de mãos apressadas e de voz inquieta. Tales e eu abraçados permanecemos enquanto perguntávamos o que era poesia aos demais. E agora vai uma resposta possível:

Poesia é ver Drummond e outros mestres repousarem em estantes da periferia
É encontrar pessoas, cuja crença num mundo melhor faz parte da prática
Poesia é sentar na calçada, escutando canções, histórias, poemas e tantas risadas
É receber um abraço e uma declaração de uma menina recém conhecida: “eu gosto de você”
Poesia é ser alçada por uma criança de 3 anos em plena biblioteca.

Sim, Ester, eu também gosto de você e meus pés ainda estão fora do chão.

Para Fabiana Coelho, Betânia e todos os meninos do Coque.

4 respostas para Com a palavra, a poeta

  1. Magna disse:

    Obrigada pela generosidade, Fabiana!
    E vamos seguindo com os pés caminhantes e coração de asas.
    Beijos!
    Magna

  2. Gerusa Leal disse:

    Que belo trabalho, Fabiana. Parabéns a todos que mantém a Biblioteca, às crianças, aos pais e professores dessas crianças, aos escritores, aos poetas, aos líderes comunitários, à comunidade, enfim a todos que tornam possível que um espaço assim exista e continue.
    abraços

    • bpcoque disse:

      Obrigada Gerusa. É uma honra saber que os poetas do Recife acompanham nosso trabalho… e, em nosso próximo sarau, queremos contar com todos!!! Um grande abraço.

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