Felizes, duas vezes felizes!!!

Alegria! Estamos alegres nesta tarde de sexta-feira, 21 de outubro. E temos razões para isso. Aliás, duas razões. Primeiro, nossa redação para o Concurso Ler é preciso, do Instituto Ecofuturo, ficou entre os dez classificados na categoria profissionais de biblioteca. Segundo, nosso projeto para manutenção do trabalho de incentivo à leitura na Biblioteca foi aprovado no Funcultura. Significa que poderemos qualificar nossa ação, contratando profissionais, garantindo oficinas e apresentações culturais, instalação de Internet, e apoio para manutenção infra-estrutural.  Agradecemos a todos os que já nos apoiam: Instituto C&A; Etapas; Fafire; Gráfica RecifeSilk; ReLeitura.

Na próxima semana, nos reuniremos com o pessoal do Funcultura para receber as orientações. Aí, é mãos à obra!!! Disposição para o trabalho não nos falta, com ou sem recursos! E agora, vamos à redação premiada, da mediadora Fabiana Coelho, que se inspirou nas crianças, na biblioteca, na realidade e nas pessoas maravilhosas da comunidade do Coque:

“Como cuidar de uma flor no asfalto

Rudimar nunca soube o que é cuidado. Nunca. Rudimar cresceu só por valentia. Não fosse assim, minguaria feito flor entre pedras. O menino nasceu por descuido. E descuidado ficou, para sempre. Ou melhor: quase sempre.

Rudimar é preto, pretinho. E mora num lugar que é esquecido do mundo. Um lugar onde ninguém sabe o que é cuidar da vida porque estão todos ocupados em continuar vivos. Nesse canto da terra, ninguém envelhece. Quando as crianças sobrevivem à fome, os jovens morrem de bala.

Rudimar é cachorro sem dono. Mal começou a andar, descobriu que a rua é o lugar ideal. Na casa, o espaço é pequeno para dividir com os irmãos e os ratos. Na casa, a mãe chora e grita, o pai bebe e briga, as crianças apanham. A rua é o lugar ideal: berçário e escola de Rudimar.

Foi lá que ele aprendeu a gritar, como gritam os habitantes de sua terra. Foi lá que ele aprendeu a bater, como batem os habitantes de sua terra. Foi lá que ele aprendeu a sobreviver, a escapar da fome e dos tiros, a debochar da vida e da morte.

Rudimar cresceu sonhando armas. Mas, no escuro de si mesmo, escondido de todos, cultivava um prazer só seu: copiar as letras, as palavras, como se, um dia, ele as pudesse ter para si. Como se, um dia, ele pudesse ser capaz de entender o que se esconde sob aqueles enigmas.

Quando construíram aquela biblioteca, o menino desdenhou. Mas, como florzinha no asfalto, o mundo de livros se ergueu na casa do esquecimento. E virou a Terra do Nunca, morada dos meninos perdidos que ninguém quer encontrar. Como Rudimar.

Ele e outros construíram ali suas esperanças. Mas, como não sabiam fazer de outro jeito, lá chegavam com gritos, socos ou com o silêncio oco dos descuidados. Não tinham aprendido a ouvir. E as histórias que a professora contava chegavam-lhe em migalhas, interrompidas pelo atrito de crianças que se esmurravam, gritavam ou corriam.

Rudimar também não sabia ouvir. Mas alguma coisa ficava de todas aquelas leituras. Aos poucos, ele percebia que as letras se desfaziam em histórias e os livros descortinavam mundos ocultos, que ele precisava conhecer.

Sem sequer perceber, ele passou a atentar às aulas e duplicar esforços para juntar os sons. Escondido de todos, pegava um livro: olhava as figuras e passava horas tentando descobrir o que se escondia atrás das letras. E, um dia, muito tempo depois, ele descobriu.

Rudimar tem hoje 30 anos. Cresceu como flor entre pedras. Mas cresceu. E, no mundo que desabrochou por trás das palavras, ele reinventou a vida. Só assim, com a vida reinventada, ele pôde saber o que é cuidar. Então deitou sementes. Seu filho, Ricardinho, tem apenas quatro anos, mas acompanha o pai nas andanças pelo mundo dos livros, onde ele é professor”.

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8 respostas para Felizes, duas vezes felizes!!!

  1. Érica Verçosa disse:

    Muito feliz!!! Parabéns e vamos que vamos!

  2. Paty disse:

    E continuem “Rudimando” (rs)…PARABÉNS!

  3. Magna disse:

    Eita, meu Deus, como é bom ler isto! Como é bom saber disto! Como é bom te conhecer, Fabiana!
    Parabéns! Parabéns a todos da biblioteca! Sigam em frente!
    Beijão!
    Magna

  4. Sandra Barros disse:

    Fabiana,
    fiquei emocionada com o teu escrito, até mesmo por conhecer de perto esta realidade que muito nos comove. E poder trabalhar ao teu lado, para mim é mais um apreendizado a cada dia. Acredito estar no lugar certo e com as pessoas certas. Sei do carinho que aquelas crianças têm por ti e a doçura com que desenvolve tuas atividades, e é em nome deles que venho te parabénizar pelo momento presente. Parabéns!!!! Neste momento é uma mistura de choro com muita alegria, por você ter conseguido ser contemplada com o trabalho desenvolvido em nome da comunidade do Coque. Ainda estou sem acreditar que vamos desenvolver um trabalho ainda melhor do que realizamos e que para aquelas crianças fazem toda a diferença.
    Beijão!!! e vamos à luta, há muita coisa por fazer…
    Sandra Barros

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